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Pescar

Publicado a 27 de outubro de 2026

Marés, lua e vento: como escolher a melhor altura para pescar

Marés vivas e mortas, coeficientes, períodos solunares, vento e ondulação: como interpretar cada fator e onde consultar as previsões oficiais do Instituto Hidrográfico e do IPMA.

Por Nuno Branco

Foto: Alvesgaspar · CC BY-SA 3.0
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Há dias em que o peixe parece não existir e outros em que tudo corre bem. Muito disso depende de fatores que se podem prever: a maré, a fase da lua, o vento e a ondulação. Saber lê-los ajuda a escolher o dia, a hora e o sítio. E, acima de tudo, ajuda a pescar em segurança.

Como funcionam as marés

A maré é a subida e descida periódica do nível do mar, causada sobretudo pela atração da Lua e do Sol. Na costa de Portugal continental a maré é semidiurna: há duas preia-mares (PM) e duas baixa-mares (BM) por dia lunar, que dura cerca de 24 horas e 50 minutos. Por isso as marés atrasam, em média, perto de 50 minutos de um dia para o outro.

O glossário das Tabelas de Marés do Instituto Hidrográfico define alguns termos úteis:

  • Enchente: período entre uma baixa-mar e a preia-mar seguinte, quando a água sobe.
  • Vazante: período entre uma preia-mar e a baixa-mar seguinte, quando a água desce.
  • Estofo: curto período, no topo ou no fundo da maré, em que o nível quase não muda e a corrente de maré pára.
Lua cheia sobre o mar: marés vivas
Lua cheia sobre o mar: marés vivas · Foto: Alfredo J G A Borba, CC BY-SA 4.0

Marés vivas e marés mortas

Segundo o Instituto Hidrográfico, as marés vivas (ou águas vivas) são as de maior amplitude e acontecem perto da Lua Nova e da Lua Cheia, quando as forças do Sol e da Lua se somam. As marés mortas (ou águas mortas) são as de menor amplitude e acontecem perto do Quarto Crescente e do Quarto Minguante, quando essas forças se contrariam.

O ciclo repete-se aproximadamente de duas em duas semanas. Para o pescador, as consequências são práticas:

  • Em marés vivas a água mexe mais. As correntes são mais fortes, a água entra e sai dos estuários com força e há mais alimento em movimento. É frequentemente uma boa altura para robalo e dourada em estuários e praias. Também é quando a baixa-mar deixa à vista mais rochas e bancos de areia, o que favorece a apanha de isco.
  • Em marés mortas as correntes são mais fracas. Pode ser mais fácil manter o chumbo no fundo e pescar zonas onde em vivas a corrente seria excessiva.

Não existe uma regra universal sobre qual é melhor. Depende do local, da espécie e da técnica.

Coeficientes de maré

Muitas aplicações e sites mostram um «coeficiente de maré». É útil, mas convém saber de onde vem.

O coeficiente mais conhecido é o calculado pelo SHOM, o serviço hidrográfico francês. Numa escala de 20 a 120, indica a amplitude da maré em Brest, o porto de referência francês: cerca de 45 corresponde a marés mortas médias e cerca de 95 a marés vivas médias. Acima de 100 fala-se em grandes marés. Em rigor, o SHOM aplica esta escala às costas francesas do Atlântico e da Mancha. Quando um site a mostra para portos portugueses, está a usar uma aproximação.

O glossário do Instituto Hidrográfico usa «coeficientes de maré» num sentido mais simples: a diferença de altura entre preia-mar e baixa-mar consecutivas, como indicador da amplitude prevista. Para Portugal, o mais fiável é olhar diretamente para as alturas de água previstas nas tabelas oficiais: quanto maior a diferença entre PM e BM, mais viva é a maré.

Maré vazia: o mesmo porto, horas depois
Maré vazia: o mesmo porto, horas depois · Foto: W. Bulach, CC BY-SA 4.0

Onde consultar as marés oficiais

O Instituto Hidrográfico publica previsões de marés para os portos portugueses e edita anualmente as Tabelas de Marés (o Volume I cobre o continente, os Açores e a Madeira). As tabelas indicam as horas e alturas das preia-mares e baixa-mares dos portos principais e correções para portos secundários.

Atenção à hora. As Tabelas de Marés avisam que as previsões são calculadas para o Fuso 0 (hora UTC), que pode não coincidir com a hora legal. No continente, durante a hora de verão, é preciso somar uma hora às horas da tabela. Confirme sempre em que hora está a fonte que está a consultar.

As alturas indicadas referem-se ao zero hidrográfico e são previsões astronómicas. O próprio IH lembra que as alturas reais podem afastar-se das previstas por causa do tempo:

  • Pressão atmosférica: baixas pressões fazem subir o nível do mar e altas pressões fazem-no descer. Em termos aproximados, uma variação de 10 hPa corresponde a cerca de 9 cm de água.
  • Vento: vento forte a soprar para terra faz subir o nível acima do previsto. Vento de terra para o mar tem o efeito contrário.
  • Cheias: em rias e estuários, as cheias e as estiagens também mudam os níveis.

Que fase da maré escolher

Muitos pescadores preferem as horas à volta das mudanças de maré, sobretudo o início da enchente e a primeira parte da vazante, quando a água começa a mexer. Algumas orientações gerais:

  • Praias de areia (surfcasting): a enchente traz o peixe para perto da rebentação à procura de alimento.
  • Estuários: a vazante arrasta alimento para a foz e os predadores esperam nas saídas de canais.
  • Pesqueiros de rocha: muitos só são acessíveis ou pescáveis em determinadas alturas da maré. Conheça o seu pesqueiro.

Tome nota das suas pescarias (data, hora, maré, vento, capturas). Com o tempo, vai perceber o que funciona em cada sítio.

A lua e os períodos solunares

A lua influencia diretamente as marés, como vimos. Além disso, existe a chamada teoria solunar, popularizada no século XX, que propõe períodos de maior atividade dos peixes ligados à posição da Lua (passagem pelo meridiano, nascer e pôr). Muitas aplicações mostram estes «períodos maiores e menores».

Encare-os como uma referência tradicional, não como uma previsão oficial. Nem o IPMA nem o Instituto Hidrográfico publicam previsões solunares para pesca. Na costa, o efeito da lua sobre a maré e a corrente é muito mais fácil de observar do que qualquer período solunar. Se quiser experimentar, combine-os com a tabela de marés e com as suas próprias notas.

As fases da lua constam das próprias Tabelas de Marés do IH e também das efemérides astronómicas publicadas pelo IPMA.

Vento e ondulação

O vento e o mar decidem muitas vezes se vale a pena sair de casa.

Vento

  • Vento forte de frente dificulta o lançamento e a leitura da ponteira. Vento lateral faz «barriga» na linha.
  • Vento de terra costuma acalmar a rebentação, mas pode arrastar embarcações pequenas para o largo.
  • Mudanças bruscas de vento e de pressão, como a passagem de uma frente, alteram o comportamento do peixe e o estado do mar.

Ondulação

  • Um mar com alguma ondulação oxigena a água e levanta alimento, o que pode favorecer espécies como o robalo e o sargo.
  • Mar muito grosso torna a pesca impossível e perigosa, sobretudo em rochas e molhes.
  • Repare no período da onda, além da altura. Ondulação de período longo chega com mais energia e as séries grandes podem surgir de repente, mesmo em dias de pouco vento.

Onde consultar o tempo e o mar

Segurança acima de tudo

  • Respeite sempre os avisos do IPMA e as indicações da Autoridade Marítima. Com aviso de agitação marítima, evite rochas, molhes e arribas.
  • Em pesqueiros de rocha, nunca vire as costas ao mar e observe as séries de ondas durante alguns minutos antes de se instalar.
  • Planeie a saída de bancos de areia e rochas antes da enchente. A água pode cortar o caminho de regresso.
  • Avise alguém de onde vai e a que horas conta voltar.
  • Em certas zonas de risco, a pesca apeada pode ser interdita ou condicionada ao uso de meios de segurança individual, como prevê a Portaria n.º 14/2014. Cumpra os editais locais.

Juntar a tabela de marés, a previsão do IPMA e a experiência própria é a melhor forma de escolher a altura certa. O peixe nem sempre colabora, mas assim as probabilidades ficam do seu lado.

Referências

  1. Tabela de Marés 2026 – Volume I (Portugal) · Instituto Hidrográfico
  2. Previsão oceanográfica – altura de maré · Instituto Hidrográfico
  3. Oceanographic Forecast · Instituto Hidrográfico
  4. Marées – coefficients · SHOM
  5. Previsão marítima costeira · IPMA
  6. Altura significativa da onda · IPMA
  7. Avisos meteorológicos · IPMA
  8. Estado das barras · Autoridade Marítima Nacional
  9. Pesca lúdica – Perguntas frequentes (2026) · DGRM

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