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Pesca ao fundo
Também conhecida como pesca de fundo, pesca ao fundo de rocha, pesca de molhe, pesca ao fundo embarcada
O isco fica pousado no fundo do mar, seguro por uma chumbada, e a picada sente-se na ponta da cana. Pratica-se a partir de rochas, molhes e barcos. É a técnica mais usada na pesca lúdica de costa em Portugal, para sargos, douradas, safios, pargos e fanecas.
Onde se usa
RochaMolhe e caisEstuárioMar abertoRecife

O que é
Na pesca ao fundo o isco fica no fundo, segurado por uma chumbada. A FPPD define-a como a modalidade em que a baixada (o troço final com o anzol) fica no fundo por causa da chumbada e em que se ferra ao sentir o ataque na linha ou na ponteira da cana.
Aqui tratamos a pesca ao fundo no mar a partir de rochas e molhes e de barco. A pesca ao fundo em praias de areia tem ficha própria (surfcasting), e a de água doce também (pesca ao fundo em água doce).
É a técnica mais popular: num estudo feito na costa norte, foi usada em três de cada quatro ações de pesca. É simples, permite pescar com várias canas e procura muitas espécies que comem no fundo.
Como se faz
Da rocha ou do molhe:
- Escolha um pesqueiro (local de pesca) com água funda à frente, pedras e algas onde o peixe se esconde e uma saída segura.
- Monte uma baixada simples: chumbada no fim e um ou dois anzóis acima, em estralhos curtos. Ligue a chumbada com linha mais fraca, para a perder sem perder o resto se prender.
- Lance perto, para a beira das pedras ou valas. Muitas vezes bastam 10 a 30 m.
- Estique a linha e segure a cana ou pouse-a num suporte. Atenção à ponteira.
- Ferre com firmeza e tire logo o peixe do fundo, antes que se meta nas pedras.
De barco:
- Procure fundos de pedra, recifes ou desníveis com a sonda (aparelho que mostra a profundidade e o fundo).
- Pesque fundeado (com âncora) ou à deriva, deixando cair a chumbada na vertical até tocar no fundo.
- Suba um pouco a montagem para não prender e sinta as picadas. À deriva, vá ajustando a linha à profundidade.
- Engode com sacos de engodo junto ao fundo se estiver fundeado.
Material
- Rocha e molhe: canas robustas de 3 a 4,5 m, carreto de bobina fixa forte, linha de nylon grossa e resistente ao desgaste, chumbadas de 30 a 120 g, conforme a corrente.
- Barco: canas curtas e fortes (1,8 a 2,7 m), carretos de bobina fixa ou rotativa; para grandes profundidades, há quem use carretos elétricos, que a DGRM confirma serem permitidos.
- Anzóis de vários tamanhos, destorcedores, missangas, bicheiro ou xalavar de cabo comprido para tirar o peixe em molhes altos (ou rabeca, em falésias).
- Faca, alicate, toalha, geleira e luvas.
Iscos e amostras
Iscos naturais: minhocas marinhas, caranguejo (o de muda é muito apreciado no Norte), camarão, mexilhão, lapa, lula, choco, polvo e peixe como sardinha e cavala.
O engodo é permitido na pesca apeada e embarcada (não na submarina). Proibido usar ovas de peixe. Na pesca embarcada usam-se também aparelhos com várias penas ou pequenas amostras, dentro do limite de anzóis.
Quando resulta melhor
Rocha: mar com alguma ondulação e espuma, sem ser perigoso. As horas da enchente e da praia-mar, o amanhecer, o fim do dia e a noite costumam ser os melhores momentos. Outono e inverno são a época clássica para sargos e safios; o verão, para douradas e bicas.
Barco: mar calmo, vento fraco e marés de corrente moderada (marés mortas). Com corrente forte a deriva é rápida e é preciso mais chumbo. Respeite sempre os avisos do IPMA e da Capitania.
Onde se pratica
Rocha: toda a costa rochosa, do Minho ao Algarve, em especial a costa norte, a Estremadura, a Arrábida (fora das zonas interditas), o Sudoeste Alentejano e a Costa Vicentina, e o Barlavento algarvio. Na costa sul e sudoeste, os sargos são das espécies mais capturadas pela pesca lúdica de costa.
Molhes: barras de rios e portos, como a Foz do Douro, Viana do Castelo e a Barra de Aveiro, sempre a mais de 100 m de portos de abrigo e docas e respeitando os editais da Capitania.
Barco: fundos de pedra e recifes ao largo de toda a costa. Nas reservas e parques marinhos (Berlengas, Arrábida, Costa Vicentina, Pedra do Valado) as regras são muito mais restritas.
Diferenças para outras técnicas
Pesca ao fundo de rocha vs. surfcasting. Ambas deixam o isco no fundo, mas na rocha o peixe está perto, entre pedras e algas: lançamentos curtos, canas mais curtas e fortes, linhas grossas e chumbadas que se aceita perder. No surfcasting o fundo é de areia limpa, o peixe anda na rebentação e são precisos lançamentos longos e canas compridas. Na rocha o risco é a queda e o golpe de mar; na praia, as ondas e a ressaca.
Fundo de terra vs. fundo de barco. De barco chega-se a fundos e recifes que de terra não se alcançam, pesca-se na vertical, sem lançar, e as espécies mudam (pargos, fanecas, besugos, chernes, safios grandes). Exige licença embarcada, embarcação registada e coletes para todos.
Fundo vs. bóia. No fundo o isco está pousado e a picada sente-se na cana; na bóia o isco está suspenso e a picada vê-se no flutuador. Em fundos com muitas pedras a bóia prende menos; com corrente ou para lançar longe, o fundo é mais prático.
Fundo vs. jigging. No jigging também se pesca junto ao fundo a partir do barco, mas com amostras metálicas trabalhadas aos esticões, sem isco natural. O fundo é uma pesca de espera com isco natural.
Fundo no mar vs. ledgering. O princípio é o mesmo, mas o ledgering é a pesca ao fundo em água doce, com material mais leve, iscos próprios (milho, boilies, larvas) e licença do ICNF.
Dicas
- Na rocha, conheça o pesqueiro na maré vazia: veja onde estão as pedras e os canais.
- Use chumbadas baratas ou recicladas: na rocha perde-se muito chumbo.
- Não deixe a cana esquecida: no fundo de pedra, o peixe ferrado mete-se logo nas tocas.
- No barco, anote na sonda ou no GPS os fundos que dão peixe, mas não pesque a menos de 50 m de outras embarcações ou de artes caladas.
- Até três canas e nove anzóis por pescador: com várias canas, distribua os anzóis.
Segurança
O mar é a maior ameaça: antes de sair, consulte a previsão e os avisos do IPMA e a tabela de marés. Nunca vire costas ao mar, evite rochas molhadas e com limos, e tenha sempre um caminho de recuo que a maré não corte. Use calçado antiderrapante; em rocha e molhe a DGRM aconselha colete, embora não seja obrigatório em terra. Leve telemóvel carregado, diga a alguém onde vai e não pesque sozinho em sítios expostos. No arremesso, confirme que não há ninguém atrás ou ao lado. Guarde os anzóis protegidos e use alicate para os tirar. Em caso de emergência ligue 112.
No barco: colete obrigatório para todos a bordo, rádio ou telemóvel numa bolsa estanque, combustível de reserva e plano de navegação comunicado a alguém em terra. Não saia se houver aviso de mau tempo.
Licença e regras
No mar, nos estuários e nas águas interiores sob jurisdição da Autoridade Marítima do continente, a pesca lúdica com cana exige licença de pesca lúdica da DGRM. Há licenças diárias, mensais e anuais, de quatro tipos: apeada (a partir de terra firme ou de rochas isoladas), embarcada (a bordo; inclui também a apeada), submarina e geral (abrange todas). Obtêm-se no Multibanco, nos balcões da DGRM e das direções regionais de agricultura e pescas, ou no portal Bmar. A licença é digital e fica associada ao número do documento de identificação. Os menores de 16 anos acompanhados por um titular de licença não precisam de licença própria. A licença da DGRM não é válida nos Açores, na Madeira nem nas águas doces geridas pelo ICNF (por exemplo, no Douro a montante da barragem de Crestuma).
Regras gerais confirmadas pela DGRM: cada pescador pode usar até três canas ou linhas e nove anzóis no total; em alguns rios as regras são mais apertadas (Cávado, Douro, Lima e Mondego: duas canas; Tejo e Sado: duas canas e três anzóis). São permitidos iscos naturais ou artificiais e engodo, exceto ovas de peixe e substâncias tóxicas ou explosivas. Luzes para atrair o peixe só com toneiras; em bóias, só como indicador. Na pesca apeada é preciso guardar 5 m de outro pescador que já lá esteja e não se pode pescar a menos de 100 m de portos de abrigo, docas, estaleiros, aquiculturas ou saídas de esgoto assinaladas. A Capitania do Porto pode limitar a pesca em molhes perigosos e, por edital, regular a pesca noturna em praias concessionadas durante a época balnear. Nas áreas marinhas protegidas (Litoral Norte, Berlengas, Arrábida, Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, Pedra do Valado) há restrições próprias.
Pesca ao fundo de barco:
A bordo é obrigatória a licença embarcada (ou geral). Quem só tem licença apeada e vai num barco marítimo-turístico pode comprar uma licença diária, fornecida pela empresa. Só se podem usar embarcações registadas no recreio ou na atividade marítimo-turística: kayaks, canoas, pranchas e insufláveis não registados não servem. Todos a bordo têm de usar colete ou auxiliar de flutuação. Deve manter-se 50 m de outras embarcações, de artes de pesca caladas (incluindo as bóias que as sinalizam) e de caçadores submarinos. É proibido pescar de barco nas barras dos portos, embocaduras dos rios e canais de navegação. Nas áreas marinhas protegidas a pesca embarcada só é permitida de quinta a segunda-feira e feriados, exceto entre 1 de junho e 30 de setembro.
Curiosidades
- Num estudo de 2003 entre Moledo e Aveiro, a pesca ao fundo foi usada em 74 % das ações de pesca de costa observadas. A autora associa a preferência ao carácter convivial: é a técnica que exige menos concentração.
- No mesmo estudo, o número de anzóis e o uso de engodo estavam ligados a uma maior probabilidade de captura.
- Na costa sul e sudoeste, as capturas de sargo pela pesca lúdica de costa chegaram a 65 % das descargas da pesca profissional da mesma espécie (Veiga et al., 2010).
Onde se pratica em Portugal
Zonas onde a técnica é comum, com exemplos de locais públicos. Confirme sempre as regras locais e as zonas interditas.
Costa e ilhas
- Costa do Minho
Rochas de Moledo, Carreço e Amorosa; molhes do Cabedelo (Viana do Castelo)
Na Reserva Natural do Litoral Norte a pesca lúdica é interdita nas áreas de proteção parcial do tipo I.
- Costa Norte
A Ver o Mar, Cabo do Mundo, Madalena e Valadares (rocha); molhe das Caxinas, molhe do Farol da Foz do Douro, molhes de Espinho
- Costa Centro
Molhes do Furadouro e da Barra de Aveiro
- Costa Oeste
Berlengas (pesca embarcada)
Reserva natural: proibido pescar de barco a menos de 50 m de terra, usar anzóis com abertura inferior a 9 mm e a técnica «chumbadinha».
- Alentejo litoral
Costa rochosa do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina
Parque natural: interdita nas áreas de proteção total e parcial do tipo I; nas de tipo II só pesca à linha de terra, com duas canas no máximo. Há defeso do sargo e do bodião na pesca apeada.
Outras técnicas
- Intermédio
Jigging
Pesca de barco com uma amostra metálica pesada (o «jig») que se deixa cair até ao fundo e se faz subir e descer na vertical, por baixo da embarcação, para provocar o ataque de predadores como o pargo, o safio ou o charuteiro.
- Intermédio
Corrico
Pesca com amostras ou isco rebocados por uma embarcação em andamento, à superfície ou a pouca profundidade. Vai desde o corrico costeiro à cavala e ao robalo até à pesca grossa de espadins e atuns nos Açores e na Madeira.
- Iniciação
Pesca com toneira
Pesca de lulas e chocos com a toneira, um isco artificial com lastro e uma coroa de anzóis sem barbela, trabalhada em sobe e desce de barco ou lançada de terra. Inclui o egging, a variante moderna de origem japonesa feita com cana leve.
- Iniciação
Linha de mão
A forma mais antiga e simples de pescar: uma linha com chumbada e anzóis, segurada e trabalhada diretamente com a mão, sem cana. Pratica-se de barco ou de cais e molhes, sobretudo ao fundo.
Material, iscos, nós e montagens: pesca ao fundo
Iscos naturais
Isco natural · Crustáceos
Camarão
Isco natural · Crustáceos
Caranguejo
Isco natural · Moluscos
Lingueirão e navalha
Isco natural · Moluscos
Lula e choco (isco)
Isco natural · Moluscos
Mexilhão
Isco natural · Peixe
Cavala e carapau (isco)
Isco natural · Peixe
Sardinha
Isco natural · Vermes
Americano (minhoca-de-sangue)
Montagens
Montagem · Bóia
Montagem para robalo com isco vivo
Montagem · Embarcação
Montagem de fundo de embarcação (paternoster de 2–3 estralhos)
Montagem · Fundo (mar)
Montagem com clip de impacto (pulley rig)
Montagem · Fundo (mar)
Montagem de chumbada corrida (ledger)
Montagem · Fundo (mar)
Montagem de surfcasting de 1 e 2 anzóis (paternoster)
Nós
Nó · Ao anzol e destorcedor
Nó clinch melhorado
Nó · Ao anzol e destorcedor
Nó de anzol de pata (snell)
Nó · Ao anzol e destorcedor
Nó de bobina
Nó · Ao anzol e destorcedor
Nó Palomar
Nó · Ao anzol e destorcedor
Nó uni
Nó · Laçadas e voltas
Laçada de cirurgião
Nó · Laçadas e voltas
Nó de alça perfeita
Nó · Laçadas e voltas
Nó de laçada dupla (dropper loop)
Material
Material · Anzóis e chumbos
Anzóis
Material · Anzóis e chumbos
Chumbadas e chumbos
Material · Bóias e acessórios
Alicate, desanzolador e régua de medição
Material · Bóias e acessórios
Camaroeiro e manta de desanzolar
Material · Bóias e acessórios
Destorcedores, alfinetes e pequenos acessórios
Material · Canas
Cana de surfcasting
Material · Carretos
Carreto de bobine fixa
Material · Carretos
Carreto de tambor rotativo (baitcasting e multiplicador)
Notícias, artigos e eventos: pesca ao fundo
Referências
- Perguntas frequentes — Pesca Lúdica (versão 2026) · DGRM — Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (tipos de licença DGRM, artes permitidas (cana, linha de mão, toneira, corrico), 3 canas/9 anzóis, regras mais restritivas nos rios, distâncias, zonas proibidas, iscos e engodos, fontes luminosas, emba)
- Portaria n.º 14/2014, de 23 de janeiro · Diário da República (regulamento da pesca lúdica em águas oceânicas, interiores marítimas e interiores não marítimas sob jurisdição da Autoridade Marítima)
- Contribuição para o estudo da pesca recreativa de costa em Portugal (dissertação de mestrado) · Universidade do Porto — ICBAS (M. R. M. D. Oliveira, 2003) (definições FPPD de pesca à bóia, ao fundo, ao lançado, ao sentir e ao casting; pesca ao fundo em 74,39 % e à bóia em 22,97 % das ações de pesca entre Moledo e Aveiro; locais de areal, rocha e molhe am)
- Quantifying recreational shore angling catch and harvest in southern Portugal (Journal of Fish Biology 76: 2216–2237) · Veiga, Ribeiro, Gonçalves & Erzini (2010), Universidade do Algarve / CCMAR (pesca lúdica de costa em ~250 km da costa sul e sudoeste; peso relevante das capturas de sargo)
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