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Pescar

Publicado a 27 de outubro de 2026

Pescar e devolver: como manusear e soltar um peixe

Boas práticas de captura e devolução: anzóis sem farpa, luta curta, pouco tempo fora de água e manuseamento cuidadoso. E quando a lei obriga a devolver ou proíbe a devolução de espécies invasoras.

Por Nuno Branco

Foto: USFWS Mountain Prairie · Public domain
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Devolver um peixe à água parece simples: tira-se o anzol e solta-se. Na prática, a forma como o apanhas, o seguras e o soltas faz toda a diferença. Um peixe que parece bem pode morrer horas depois se ficar muito tempo fora de água ou se for mal manuseado. Este guia explica as boas práticas de captura e devolução, quando a devolução é obrigatória e quando, pelo contrário, é proibida.

Nota: as regras legais aqui resumidas não substituem a lei em vigor nem os editais locais, que prevalecem sempre.

Porque é que o manuseamento importa

A investigação sobre captura e devolução é extensa. Uma revisão de 2005 de Bartholomew e Bohnsack, que analisou dezenas de estudos, concluiu que a mortalidade após a devolução varia muito entre espécies e situações. O fator mais importante é onde o anzol fica cravado: peixes fisgados fundo, na garganta ou nas guelras, morrem muito mais. Também pesam a profundidade de captura, a água quente e lutas e manuseamentos prolongados (Bartholomew & Bohnsack, 2005).

Na mesma linha, Cooke e Suski propuseram regras gerais para espécies sem estudos próprios: lutas curtas, pouco tempo fora de água, evitar pescar com temperaturas extremas da água, usar anzóis sem farpa e amostras, e evitar pescar peixes em plena reprodução (Cooke & Suski, 2005). As orientações técnicas da FAO para a pesca recreativa seguem os mesmos princípios.

Sustentar o peixe na horizontal até ele nadar sozinho
Sustentar o peixe na horizontal até ele nadar sozinho · Foto: USFWS Pacific Southwest Region, Public domain

Antes de lançar: preparar a devolução

Anzóis sem farpa

Um anzol sem farpa sai mais depressa e com menos dano. Num estudo com peixes de água doce, os peixes apanhados com anzóis sem farpa foram desanzolados mais depressa e ficaram menos tempo fora de água. Não precisas de comprar anzóis novos: basta esmagar a farpa com um alicate. Vais perder um ou outro peixe durante a luta, mas mantém a linha tensa e verás que a diferença é pequena.

Anzóis e iscos adequados

  • Com isco natural, o peixe tende a engolir mais. Ferra cedo, não deixes o peixe "comer" à vontade.
  • Os anzóis circulares tendem a cravar no canto da boca. A revisão de Bartholomew e Bohnsack associou os anzóis em J a maior mortalidade do que os circulares.
  • Amostras com muitas fateixas causam mais ferimentos. Se pescas para soltar, considera trocar fateixas por anzóis simples.

Ferramentas à mão

Antes de lançar, tem perto: alicate de pontas longas ou desanzolador, tesoura para cortar a linha e, se usares, um xalavar (camaroeiro de recolha). A DGRM confirma que o xalavar é permitido na pesca lúdica de mar, porque só ajuda a recolher o peixe já preso. Prefere redes de malha de borracha ou sem nós, que tiram menos muco e escamas.

Material à medida do peixe

Material demasiado leve prolonga a luta e esgota o peixe. Escolhe uma linha e uma cana que te permitam trazer o peixe com firmeza e sem demoras.

Durante a luta e a recolha

  • Luta curta: traz o peixe com decisão. Quanto mais tempo luta, mais ácido láctico acumula e mais difícil é a recuperação.
  • Calor: com a água muito quente, os peixes recuperam pior. Nesses dias, se queres soltar, pesca mais cedo ou mais tarde.
  • Profundidade: peixes trazidos de muito fundo podem sofrer lesões de pressão. Se pescas fundo de barco, informa-te sobre técnicas específicas para estas espécies.

Manusear com cuidado

  1. Se puderes, não o tires de água. Desanzola com o peixe dentro de água, junto à margem ou ao barco.
  2. Mãos molhadas. As mãos secas e os panos secos retiram o muco que protege a pele do peixe.
  3. Não apertes. Segura com firmeza mas sem pressão no ventre, onde estão os órgãos.
  4. Nunca toques nas guelras nem enfies os dedos por elas.
  5. Peixes grandes na horizontal, com uma mão sob a cabeça e outra junto à cauda. Pendurar um peixe pesado só pela boca pode ferir-lhe a mandíbula.
  6. Não o deixes cair nas rochas, no convés ou na areia.

Tempo fora de água: cada segundo conta

Fora de água o peixe não respira. Os estudos citados acima apontam a exposição ao ar como um dos fatores que mais prejudicam a recuperação. Não há um número mágico, mas o objetivo é claro: o mínimo possível.

  • Prepara a câmara e a régua antes de tirar o peixe da água.
  • Se queres foto, tira-a rápido e com o peixe junto à água.
  • Se o desanzolar está a demorar, volta a pôr o peixe dentro de água enquanto tentas.

Anzol engolido? Corta a linha

Se o anzol está fundo, na garganta ou no estômago, não o arranques. A revisão de Bartholomew e Bohnsack indica que retirar anzóis de peixes fisgados fundo aumenta a mortalidade. Corta a linha o mais perto possível da boca e solta o peixe.

A soltura

  • Segura o peixe dentro de água, na posição normal de nado.
  • Num rio, vira-lhe a cabeça para a corrente suave, para a água passar nas guelras.
  • Não o atires de alto. Espera que dê sinais de força e deixa-o sair sozinho.
  • Se precisares de o manter vivo um bocado, a DGRM admite o uso de mangas de rede parcialmente submersas na pesca lúdica de mar, para devolver o peixe em melhores condições.

Quando a devolução é obrigatória

No mar

  • Abaixo do tamanho mínimo: o peixe tem de voltar logo à água, mesmo que já esteja morto (Portaria n.º 14/2014).
  • Espécies de captura proibida: mero, raia-curva, lavagante, lagostas, peixe-lua, vários tubarões, cavalos-marinhos, entre outras. Liberta-as de imediato. A lista completa está nas perguntas frequentes da DGRM.
  • Épocas e zonas de defeso aplicáveis à pesca profissional também se aplicam à pesca lúdica.
  • Limite diário atingido: a partir daí tens de parar de pescar.

No rio

A Portaria n.º 360/2017 define espécies de devolução obrigatória, como o barbo-do-sul, a boga-do-Guadiana, o bordalo, o escalo-do-sul e o ruivaco. Estas espécies nativas têm de voltar à água em boas condições de sobrevivência. Exemplares abaixo da dimensão mínima e capturas fora do período de pesca também são para devolver.

Quando não deves devolver: espécies invasoras

Nas águas interiores há espécies exóticas que fazem mal aos ecossistemas nativos. A Portaria n.º 360/2017, na redação da Portaria n.º 108/2018, classifica-as como de devolução proibida. Se as apanhares, tens de as reter, e não as podes manter nem transportar vivas. Entre elas estão:

  • siluro (Silurus glanis), lucioperca (Sander lucioperca) e lúcio (Esox lucius);
  • perca-sol (Lepomis gibbosus) e perca-europeia (Perca fluviatilis);
  • peixe-gato-negro (Ameiurus melas) e peixe-gato-americano (Ictalurus punctatus);
  • alburno, góbio, rutilo, chanchito e pimpão-cinzento;
  • lagostim-vermelho-da-Luisiana, lagostim-sinal e caranguejo-peludo-chinês.

Há casos com regras próprias. A carpa e o pimpão são de devolução proibida em águas correntes, salvo nos troços concessionados para pesca desportiva. A truta-arco-íris é de devolução proibida em águas correntes. Já na pesca noturna à carpa autorizada em certas albufeiras, carpas e barbos acima de 65 cm têm de ser devolvidos. O achigã foi objeto de um regime próprio pela Lei n.º 25/2023. Como as regras mudam e variam por bacia e por zona de pesca, confirma sempre o edital local e as indicações do ICNF.

Porque é que isto importa? Devolver um invasor à água ajuda-o a espalhar-se e prejudica as espécies nativas que queremos proteger.

Resumo prático

  1. Esmaga a farpa e ferra cedo.
  2. Luta curta, peixe dentro de água sempre que possível.
  3. Mãos molhadas, sem apertar, sem tocar nas guelras.
  4. Anzol engolido: corta a linha.
  5. Solta com calma, na posição de nado.
  6. Conhece as regras: o que tem de voltar e o que não pode voltar.

Referências

  1. A Review of Catch-and-Release Angling Mortality with Implications for No-take Reserves (Bartholomew & Bohnsack, 2005) · Reviews in Fish Biology and Fisheries (Springer)
  2. Do we need species-specific guidelines for catch-and-release recreational angling? (Cooke & Suski, 2005) · Biodiversity and Conservation (Springer)
  3. FAO Technical Guidelines for Responsible Fisheries n.º 13 – Recreational fisheries · FAO
  4. Perguntas frequentes – Pesca Lúdica 2026 · DGRM
  5. Portaria n.º 14/2014, de 23 de janeiro · Diário da República
  6. Portaria n.º 360/2017, de 22 de novembro · Diário da República
  7. Portaria n.º 108/2018 (alteração à Portaria 360/2017) · Informador / Diário da República
  8. Lei n.º 25/2023, de 30 de maio · Diário da República
  9. Pesca nas águas interiores · ICNF

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